Interesse Público

quinta-feira, outubro 04, 2007

FW: Uma curiosidade....

O espírito poisou no Oeste



KÁTIA CATULO
DIANA QUINTELA (imagem)

Há um novo habitante nas terras do Bombarral que veste calças de linho, túnicas coloridas e anda por aí a dizer que a espiritualidade é a base de tudo na vida. Chegou à região do Oeste há ano e meio com uma missão específica: apresentar ao mundo o novo paradigma que a sociedade terá de adoptar como a única saída para a paz, o fim da pobreza ou da destruição ambiental. Para quem pensa estar perante mais um solitário naufragado nas suas utopias, Alfredo Sfeir-Younis avisa: "Não saí de um mosteiro ou de uma gruta, venho do Banco Mundial e uso a economia espiritual para promover a auto-cura do mundo."

Nascido no Chile, há 59 anos, o economista ambiental passou décadas a viajar por grande parte do mundo, trabalhou quase 30 anos no Banco Mundial, mas vive agora numa aldeia do Bombarral: "Columbeira foi uma descoberta do destino. Não tenho outra residência no mundo nem no meu país ou nos Estados Unidos onde vivi 34 anos."

É na Columbeira que Sfeir-Younis desenvolve o seu trabalho. "Tenho uma instituição, que não precisa de prédios nem delegações e não tem fins lucrativos - o Instituto Zambuling para a Transformação Humana". Traduzindo para uma linguagem tão terrena quanto possível, quer dizer que o economista persegue a transformação humana a nível mundial: "Zambuling significa mundo em tibetano. Isto é, a modificação para o qual eu trabalho tem de ser a nível global."

Despertar a consciência colectiva é, portanto, a meta do chileno: "A nossa realidade é produto de uma consciência colectiva e a economia espiritual assenta em valores que são comuns a todos nós como a paz, a tolerância, a segurança ou a igualdade."

O problema, adverte, é que uma boa parte dos que vivem neste planeta estão a milhas desse objectivo: "Vivemos preocupados em ter um carro só nosso, uma casa só nossa e por aí adiante. O capitalismo individualizou-se."

E se alguém pensa que estes conceitos são demasiado esotéricos, Sfeir-Younis desfaz o preconceito. A própria natureza do capitalismo assenta na espiritualidade, explica o novo habitante da Columbeira. Um exemplo prático é a melhor forma de arrumar os mais cépticos: "Quando coloco uma moeda numa dessas máquinas de revistas, sei que em troca há uma responsabilidade social de me devolverem um jornal", exemplifica o economista, esclarecendo que, sem essa condição, o sistema cai por terra. "A crise do modelo capitalista é justamente a quebra de confiança. Agora temos medo de viajar, de conhecer outros países porque não sabemos se no próximo minuto vai explodir uma bomba."

Mas teremos nós de abdicar de tudo o que é bom na vida para alcançar o novo paradigma? A resposta do ex-economista do Banco Mundial é um suspiro de alívio para quem pensava que teria de deixar de beber Coca-Cola ou desistir de ter o último modelo de telemóveis de terceira geração: "Não condeno uma pessoa por ter um carro topo de gama. O problema é se a sua felicidade depende de ter ou não um automóvel de luxo."

Afinal, explica Sfeir-Younis, todos os produtos que consumimos têm uma força espiritual: "O sofá onde me sento foi feito por uma pessoa, a camisa que visto foi costurada por vários empregados de uma fábrica têxtil e cada objecto é a tradução do espírito de quem investiu o seu tempo para o fabricar."

O equilíbrio está então em repartir o material e o espiritual em doses iguais. Este é o novo paradigma que Alfredo Sfeir-Younis defende: "Temos de procurar tanto o que está fora como o que está dentro de nós e vice-versa." E para isso basta valorizar um pouco mais o nosso "poder interior". No fundo, trata-se de desconstruir aquilo que a medicina chama de efeito placebo: um médico receita um medicamento a um paciente que nada tem porque sabe que ele acredita nas propriedades terapêuticas do remédio e vai sentir-se curado: "Essa crença é o poder interior que faz dinheiro, faz casas, faz um país, e as suas políticas."

Resta saber se a voz do chileno conseguirá atravessar a aldeia do Bombarral e chegar a outras paragens: "Tenho de fazer as coisas ao gosto e ao tempo dos portugueses", diz Alfredo Sfeir-Younis.

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